A relação entre sono e obesidade: matéria publicada no Jornal DCI

A obesidade é um problema de saúde pública, cerca de 60% da população dos países industrializados estão acima do peso (Indice de Massa Corporal, IMC≥25), sendo 30% obesos (IMC≥30). Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o excesso de peso mata mais do que a desnutrição, independente do grau de escolaridade e classe social do indivíduo. A vida moderna e estressante das grandes cidades, a alimentação desequilibrada, rica em açúcares e gordura e a falta de atividades físicas contribuem para este quadro grave.

Por outro lado, sabemos que a genética desempenha um fator importante na determinação do peso corporal. Ou seja, um indivíduo tem uma “tendência” ou predisposição a ser mais magro ou ter mais peso. Entretanto, os fatores ambientais como hábitos alimentares ruins e sedentarismo são considerados como principais vilões em relação aos índices crescentes de obesidade vistos em todo o mundo a partir da primeira infância.

Entre as variáveis importantes que determinam o peso corporal destaca-se também a capacidade de uma pessoa dormir adequadamente à noite ou o que se chama de: “padrão de sono noturno”. Acredita-se que um sono ruim e insuficiente teria papel central na predisposição a ganho de peso e até possa prejudicar o emagrecimento. Infelizmente, o número de jovens adultos com padrão de sono inferior a sete horas por noite é muito alto (quase 40%). Diversos estudos indicam que pessoas que dormem menos de seis horas por noite têm maior chance de ganharem peso ou se tornarem obesas.

Por fatores culturais e da própria competitividade da vida moderna, a sociedade tem sido levada a uma diminuição constante do tempo de sono: ao longo de 40 anos, a duração de sono auto-reportada nos Estados Unidos diminuiu de 1,5 a 2 horas em média. A proporção de jovens adultos com duração de sono inferior a sete horas por noite aumentou de 15,6% na década de 60 para 37,1% na atualidade. E este fator não é um problema somente para os adultos. Crianças e adolescentes também têm aumento do risco de desenvolverem obesidade proporcional à diminuição no tempo do sono conforme vários estudos já publicados.

Existem algumas profissões que apresentam um maior risco de ganho de peso, em parte por esta alteração no ciclo de sono e vigília, como os trabalhadores de turnos (enfermeiros, médicos, porteiros). Acredita-se que ocorra uma dessincronização ou desajuste no relógio biológico, fato que prejudica a duração e qualidade do sono e, consequentemente, modifica o controle da ingestão alimentar.

Dentre os possíveis mecanismos que levariam ao ganho de peso, destacam-se:

– Maior tempo acordado equivale a um maior tempo de oportunidade para se alimentar e pior, normalmente leva a uma ingestão de alimentos mais calóricos;

– Com diminuição do tempo de sono há um maior cansaço e com isto uma menor realização de atividade/ esforço físico no dia seguinte;

– Aumento de hormônios que levam a um aumento da fome (grelina) e diminuição dos níveis de hormônios que dão a sensação de saciedade (leptina);

– Produção de vários hormônios que interferem em toda parte metabólica (insulina, cortisol, adrenalina).

Além da privação do tempo de sono, alguns distúrbios do sono, como por exemplo, a síndrome de apneia obstrutiva do sono, também está associada ao ganho de peso e a diversos distúrbios metabólicos (pressão alta e alteração da taxa de açúcar no sangue). Nesta síndrome, o indivíduo tem pausas respiratórias, às vezes prolongadas, durante o sono associado em geral a ronco, e que leva a uma grande dificuldade de perda de peso e pior, até ganho. Isto acontece porque durante o episódio da apneia, há a parada do fluxo respiratório e liberação de hormônios (insulina, adrenalina, cortisol) que geram ganho peso. Sim, é como se estivéssemos comendo um bolo de chocolate enquanto dormimos.

A prevalência da síndrome da apneia obstrutiva do sono chega a 25% na população geral e alarmantes 45% quando se considera pessoas que estão acima do peso. Os homens têm maior chance (duas vezes mais) de acometimento do que mulheres e as mulheres após a menopausa têm maior risco do que as que estão na idade fértil (provavelmente há questões hormonais envolvidas).

A polissonografia é o exame de escolha para diagnóstico e seguimento dos pacientes com quadro de apneia obstrutiva do sono. Muitas vezes, uma simples intervenção como o uso de CPAP, muda drasticamente a qualidade de vida destes pacientes com quadros de apneia grave. Já tive pacientes que tinham quadro de apneia a cada 20 segundos.  A grande questão é que como estes pacientes, durante o período de apneia, não chegam ao estado de consciência plena, não fazem a mínima ideia de que apresentam tal alteração e podem-se passar anos até que seja feito o diagnóstico. É comum estes pacientes referirem “vivia cansado, desanimado e com muita sonolência diurna. Nem acredito como acordo bem disposto atualmente”.

Por outro lado, também há um grande benefício de melhora do quadro da apneia com emagrecimento. O problema é que, muitas vezes, emagrecer com o quadro de apneia torna-se muito difícil. Intervenções medicamentosas ou até mesmo técnicas restritivas, como o balão intragástrico ou banda, muitas vezes se fazem necessárias.

Além da melhora do peso, ocorre melhora metabólica em todos os sentidos: controle pressão arterial, diminuição dos níveis de glicose, maior disposição diurna, melhora da atenção e concentração.

O reconhecimento, portanto, da síndrome de apneia obstrutiva do sono é fundamental em pessoas que apresentam alguns sinais de alerta como cansaço constante, sonolência diurna, sono não reparador e dificuldade de emagrecimento.

Dra. Claudia Chang é graduada em medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutoranda em endocrinologia e metabologia pela USP. Possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, além de ser coordenadora e professora da Pós Graduação Endocrinologia do ISMD.